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O Último Mestre do Ar | Neurônio Nerd

Quando sairam as primeiras imagens do novo filme de M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido) houve desconfiança de meio mundo. Mas tão logo saiu o primeiro trailer, a desconfiança deu lugar a expectativa. As imagens eram belas e tudo parecia caminhar para o início de uma nova série épica… E então “O Último Mestre do Ar” (The last Airbender, EUA, 2010) estreia nos cinemas e chegamos a uma infeliz constatação…

“O Último Mestre do Ar” é baseado na série de desenhos animados da Nickelodeon, chamada “Avatar: The last airbender” ( no Brasil, ‘Avatar: a lenda de Aang’), que foi lançada em 2005 e recebeu muitos elogios de público e crítica. Vendo no sucesso da série um modo de reerguer seu status em Hollywood, Shyamalan embarcou nesse blockbuster que difere completamente de seu estilo.

A trama se passa em um mundo dividido em 4 grandes povos: a Tribo da Água, a Nação do fogo, O Reino da Terra, e os Nômades do Ar. Em cada povo existe um grupo especial de pessoas capazes de dominar seu elemento de origem. E dentro desse mundo, existe o Avatar, que é o único capaz de controlar os 4 elementos e assim manter a paz no mundo. Acontece que o Avatar desaparece por 100 anos, e o mundo se encontra em uma guerra iniciada pela Nação do Fogo, que pretende dominar todos os outros reinos. No auge do conflito, dois irmãos da tribo da água do sul acabam encontrando dentro de um iceberg o Avatar desaparecido; um garoto dominador de ar de 12 anos chamado Aang, e que é o último representante de seu povo que foi exterminado. Então a missão dele é aprender os outros elementos, afim de acabar com essa guerra que já dura um século…

O filme é corrido; seu roteiro atropelado não dá espaço para desenvolver muito bem nenhum dos personagens. Tudo parece um grande tour sem sentido, um roadmovie onde o espectador se torna uma ameba passiva. Desde o início o longa insiste em ficar explicando excessivamente as coisas, e Shyamalan quebra assim uma regra básica do cinema: contar uma história através de imagens, não através de letreiros. Talvez tudo isso se deva ao grande volume de informações, pois o primeiro volume da série compilava algo em torno dos 500 minutos. Colocar tudo isso em um filme de 1 hora e meia seria impossível, e por isso mesmo tudo parece sempre tão… solto.

Os atores são na maioria péssimos e quem se salva é Shaun Toub, que interpreta o general Iroh. O trio de protagonistas é muito inexperiente, e o ator Noah Ringer só foi escalado para viver o Aang por saber artes marciais.

As coreografias dos dominadores tem alguns bons momentos, mas na grande maioria são ridículas, exageradas.
E os efeitos não acompanham os movimentos pouco naturais.
Aliás, os efeitos visuais variam entre o péssimo e o bom, com destaque para os bons efeitos do Appa, o bisão voador do Avatar.

A trilha sonora é boa em alguns momentos, mas não está sincronizada com aquilo que se vê na tela.
A ação quando ocorre é boicotada pelo próprio diretor, que optou por planos longos e abertos, que praticamente anulam qualquer emoção nas batalhas. Claro que ninguém gostaria de algo como um ‘Transformers’ da vida, com aquela edição convulsiva, mas alguns cortes cairiam bem nas cenas de ação.

Se existe algo realmente bom neste filme, certamente são os cenários belíssimos. Shyamalan conseguiu recriar um mundo de muitas belezas naturais, usando locações reais combinadas a cenários digitais. O resultado final ficou muito bom.

Acho que é impossível falar de um filme desse sem fazer comparações com a animação. Claro que alguns fãs Xiitas vão encontrar defeitos até na cor dos olhos do personagens, condenando o filme simplesmente por não ser uma mimica 100% fiél ao desenho. É preciso dizer que o filme teve vários momentos bastante fiéis ao original, mas talvez a essência tenha se perdido.

Avatar era um desenho que apesar de ser voltado principalmente ao público infantil, possuia bastante maturidade. A trama sempre buscava ser inteligente, com personagens sempre profundos e carismáticos. No filme a inteligência do espectador, independente da idade, é muito subestimada com situações e diálogos risíveis.

A personagem Katara, interpretada no filme por Nicola Peltz, passa longe da decidida garota do desenho, que apesar de tentar se manter sólida por fora, guarda em seu íntimo a insegurança comum em qualquer garota. Já o irmão dela, Sokka, interpretado por Jackson Rathbone, no filme não passa de um mero figurante. No desenho Sokka era o centro cômico, mas também era o símbolo de uma coragem ingênua, sendo teimoso e muitas vezes machista.

Aang, o protagonista, era na animação um personagem que possuia uma alegria notável; corajoso e centrado, também possuía momentos muito profundos na série. No longa ele se torna apagado, sempre sério, pouco convincente.

Na série, sem dúvida alguma um dos personagens mais complexos é o príncipe Zuko. Interpretado no longa pelo ator Dev Patel (Quem quer ser um milionário?), é talvez um dos poucos personagens que manteve suas principais características. Orfão de mãe, renegado pelo próprio pai que o feriu e com a obstinação em capturar o Avatar, Zuko se torna um personagem trágico que pode causar encantamento ou aversão.


Outro ponto de destaque na animação, era a mitologia incrívelmente vasta e complexa do mundo do Avatar, contando a história da história, construindo caminhos bifurcados que no final acabam por se ligar novamente. Mas no longa-metragem fica difícil mensurar tudo isso, principalmente pelo pouco tempo de duração.
Muitos personagens interessantes e alguns até fundamentais foram ceifados do roteiro, como as Guerreiras de Kyoshi e o Avatar Roku; este último protagonizando no desenho momentos tocantes e épicos, em todas as vezes em que se encontra com Aang no Mundo Espiritual.

Aliás, Shyamalan perdeu a chance de colocar nas telas um dos momentos mais interessantes da primeira temporada, quando Aang entra no mundo espiritual em busca dos espiritos da Água e do Mar, e se encontra com Koh. Esse é um espírito antigo conhecido como “O ladrão de rostos“, e Aang deve interrogá-lo sem demonstrar emoções, pois caso contrário, Koh roubaria seu rosto.

No geral, O Último Mestre do Ar talvez seja a adaptação mais fiél de um desenho já feita, mas o maior problema é que tudo parece ter sido arquitetado e amarrado de maneira incorreta. Vítima do estúdio e de seu próprio ego, Shyamalan decidiu por retirar muitas cenas boas na ilha de edição, afim de fazer um filme conciso de 90 minutos. Talvez se tivesse as mantido, a história fosse diferente… ou não.

O Último Mestre do Ar deve agradar muito as crianças, cujas as exigências são bem menores. Mas em tempos onde a Pixar entrega ótimos trabalhos, é insatisfatório um filme feito para os menores e que não possua tanto brilhantismo.

Quem não conhece a animação, vale muito a pena conferir, independente da idade. Garanto que depois de completar sua jornada na saga do verdadeiro Avatar, ficará com a mesma sensação que eu:

No final das contas, fomos todos enganados pelo Sr. Noite.

Veja o trailer enganador:

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