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SEM aspas: A generalização das Feminazis | Neurônio Nerd

Sempre que escuto (ou leio -principalmente) o termo feminazi sinto uma vontade incontrolável de socar a criatura. Esse termo se dissipou na cultura popular como forma de ofender as feminista declaradas e normalmente são usados por pessoas que possuem tendências machistas para deslegitimizar a causa feminista.

Essa palavra foi usada pela primeira vez no início da década de 1990 pelo radialista conservador Rush Limbaugh, ligado ao partido republicano. Usar o termo nazi para alguém que não é nazista é extremamente ofensivo para quem conhece um pouco de história.  ( Os nazistas eram anti-feministas). O outro lado do termo é devido a Sara Winter, feminista, ativista, ex-líder do grupo Femen no Brasil e neonazista. Que devido aos vários protestos e boatos de que estava envolvida com grupos nazistas quando estava na Alemanha, foi chamada literalmente de Feminazi.
O verdadeiro feminismo trata de igualdade de gêneros, onde homem e mulher são iguais e não superior, um ao outro.

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Em 1980, Gloria Steinem escreveu “Se Hitler estivesse vivo, de que lado estaria?”, criticando os conservadores antiaborto por associarem feministas a nazistas. Ao compilar vários artigos no livro “Memórias da Transgressão”, Gloria Steinem explicou no prefácio o contexto no qual escreveu o artigo. E você percebe que as coisas só pioraram. Qualquer semelhança com PL 5069 é mera coincidência.

Há dezesseis anos “Se Hitler Estivesse Vivo, de Que Lado Estaria?” foi escrito para expor o fato de grupos antiaborto tentarem equacionar judeus com fetos e aqueles que apóiam abortos legais, fruto da escolha de cada uma, com nazistas. Essa retórica inflamada acabara de substituir uma tentativa frustrada da direita em pintar a legalidade do aborto como uma trama genocida contra a comunidade negra, uma alegação com pouca base na verdade (mulheres brancas estavam e estão mais propensas a se submeter a um aborto do que as de cor). A tática teria sido mais bem-sucedida se não tivesse sido engendrada por uma maioria de racistas brancos que se queixavam também de que “o mundo ocidental branco está se suicidando por meio de abortos e anticoncepcionais”. Eu achei que a mídia perceberia o cinismo dessa campanha nova e ultrajante, assim como o fato histórico de que Hitler e os nazistas eram, na realidade, antiaborto. Declarar o aborto um ato criminoso contra o Estado, crime pelo qual médicos e pacientes poderiam ser presos, fechar clínicas de planejamento familiar e banir informação a respeito de anticoncepcionais—tudo isso fazia parte dos esforços nazistas para aumentar a população ariana, eliminando ao mesmo tempo judeus e outros cidadãos indesejáveis de formas mais imediatas.

Hoje, uma década e meia depois, os grupos antiaborto ainda comparam os pró-escolha a nazistas, sem serem interpelados pela mídia. Essa retórica inflamada já causou ou justificou bombardeios e outros ataques terroristas contra clínicas de saúde reprodutiva com uma frequência de, em média, uma vez por mês. Houve também homicídios e tentativas de homicídios de médicos e funcionários das clínicas.

Teriam resultados tão violentos servido para conter a retórica antiaborto? Acho que não. Pelo contrário, tornou-se parte do mainstream. Rush Limbaugh, apresentador de um programa de televisão e integrante da direita radical, que ganhou popularidade durante o atual recuo contra a igualdade, conseguiu comprimir a falsa equação de feministas com nazistas em uma só palavra: “feminazi”. Em 1992, ao lhe pedirem para definir o termo, ele explicou: “Uma feminazi é uma mulher — uma feminista — para quem a coisa mais importante do mundo é que o maior número possível de abortos ocorra”.

Eu jamais conheci alguém que preencha tal descrição, muito embora ele a despeje sobre mim e sobre muitas outras mulheres. Na verdade, o direito de ter um filho com segurança, assim como o direito de decidir quando e se ter filhos, sempre foi a nossa meta. Por exemplo, uma das maiores batalhas feministas foi a investida contra a esterilização através de coação. A atual ênfase no aborto é uma resposta às tentativas de recriminalizá-lo ou de usar o terror para eliminá-lo de uma vez.

Não obstante, o termo “feminazi” continua sendo usado na mídia como se fosse verdadeiro ou até mesmo divertido. Será que um termo igualmente cruel, e sem base histórica, tal como “nazijudeu”, receberia tratamento parecido? Duvido muito. Quanto tempo vai levar até que a equação de escolha livre do aborto com genocídio — e de feministas com nazistas — tenha sido exposta com tal freqüência na mídia que não mais justificará o terrorismo?

Fonte: STEINEM, Gloria. Memórias da transgressão: momentos da história da mulher do século XX. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997. p. 15-16.

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