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The OA, a série da Netflix mais estranha que Stranger Things

Uma jovem mulher cruza o trânsito agitado de uma ponte, se apoia no parapeito e sob o registro da câmera de um celular, se joga lá do alto. Acorda três dias depois num hospital, um tanto quanto confusa, falando coisas que não fazem sentido algum para os personagens presentes, muito menos para nós. Com a repercussão, logo os pais da moça, Nancy e Abel a encontram no hospital. De imediato ela não os reconhece, mas ao tocar a face de sua mãe se lembra de quem são. O pai dela explica: ela nunca viu os rostos deles; há 7 anos, quando Prairie Johnson (Brit Marling) desapareceu de casa, ela era cega.

Essa é a sequência inicial de The OA, nova série original da Netflix, dirigida pelo pouco conhecido diretor Zal Batmanglij e lançada em 16 de dezembro, com pouco alarde. Ao contrário de outras séries do serviço de streaming, como o sucesso Stranger Things, The OA teve seus trailers e spots lançados apenas alguns dias antes de seu lançamento, e o marketing de divulgação da série foi realmente modesto.

The OA, uma série para se sentir

O Roteiro, criado por Brit Marling e Zal Batmanglij, é construído de maneira inteligente, curiosamente apresentando respostas antes das perguntas, inserindo informações e personagens e desenhando narrativas que embora inicialmente pareçam complexas demais – e até mesmo confusas – logo se transformam em um espectro compreensível onde as pontas aos poucos vão sendo ligadas. E é realmente belo quando o quebra-cabeças se completa.

A trama tenta nos enganar de início. Somos levados a acreditar que o foco da série será acompanhar o retorno de Prairie ao seu lar, à vida ordinária junto de seus pais, ao modo como todos tentam lidar com o aparente trauma que a moça carrega, ao supostamente ter ficado tantos anos em algum cativeiro. Tudo isso envolto por uma trama de investigação. Pelo menos é essa a impressão inicial…

O elemento fantástico sempre fica ali à espreita, esperando para entrar em cena, mesmo que em seu primeiro episódio a série fique quase o tempo todo dizendo o contrário. E é somente na parte final do Episódio 1 que a trama sai dos trilhos, positivamente, e toma rumos extraordinários. Muito do que OA falou até então passa a fazer sentido.

Do Sci-fi ao drama

A série investe no drama, suspense, elementos de sci-fi e flerta com a fantasia, mas sempre com o pé no chão. Apesar do tema envolver as questões da Experiência de Quase Morte, que é o grande estopim de toda a história de OA, a ciência sempre está presente através da ótica do Dr. Hap., abraçando o surreal, o bizarro.

Os personagens são no início um tanto intragáveis e a própria OA não é uma persona da qual se tem carisma no primeiro olhar. Pelo menos não o carisma que se espera de um protagonista. Mas nossa relação com eles vai se construindo aos poucos. Se há algum pecado no roteiro, é tornar a jornada de OA tão interessante, que em alguns momentos é fácil nos aborrecermos quando a narrativa volta ao presente.

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Queremos saber mais e mais sobre os eventos ocorridos com OA e Hap e todo o mistério dos 5 Movimentos. Entretanto, chega em certo ponto na 2º metade da série, que a narrativa alcança um refinado ponto de equilíbrio, onde os personagens do presente se tornam tão interessantes quanto os 4 companheiros de Prairie no cativeiro. É nesse ponto que a série caminha para o seu ápice claro ao fim do último episódio.

Como uma obra legitimamente independente, apesar do apadrinhamento da Netflix, os efeitos visuais certamente são o calcanhar de Aquiles da produção, que acaba não entregando em todos os momentos efeitos com uma excelência no nível do restante da parte técnica. Mas, ciente das limitações, The OA faz um bom uso de efeitos práticos (como quando Scott retorna) e ao representar o “outro mundo”, utiliza um visual abstrato e lúdico, que dispensa qualquer pedantismo de verossimilhança.

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O ritmo dos Movimentos

A Direção de fotografia é um dos pontos mais belos da produção. Nas mãos de Lol Crawley, fotógrafo que é figura bem estabelecida no mercado do cinema independente, aplica-se aqui planos e movimentos de câmera que agem em consonância com a trilha sonora e a direção de cena, criando sempre composições agradáveis de se ver.

A trilha sonora passa pelo instrumental clássico ao pop. Mas encontra sua força na junção da música erudita e das batidas poderosas da percussão. É notável a presença íntima da música através do violino de Nina e da dança através dos Movimentos. Dessa forma a série encontra na música e na dança uma forma de transcender. Algo que sempre foi usado por povos desde a antiguidade em seus rituais, em suas cerimonias, ao acreditar que com música e dança conseguimos chegar a uma frequência capaz de libertar nossa mente para transcender os limites da nossa compreensão do universo.

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Another Earth

Brit Marling já havia explorado temas filosóficos e existenciais antes, especialmente no filme “A Outra Terra” (Another Earth, 2011), o qual Marling também roteirizou, produziu e protagonizou. No filme de 2011, Brit interpretava Rhoda, uma estudante genial do MIT que num instante único de inconsequência, se embriaga numa festa, sai dirigindo e causa um acidente onde mata o filho e a esposa de um homem.

Após 4 anos na cadeia, Rhoda sai e se depara com a “descoberta” da ciência de um planeta que é o espelho do nosso mundo, orbitando muito próximo da Terra. Com a possibilidade da existência de um “outro eu”, começam uma série de questionamentos da personagem sobre seu lugar no mundo. O que a série da Netflix e o filme de 2011 tem em comum? A ideia de uma segunda chance. A ideia de poder retornar e fazer diferente. Claro que em The OA  essa premissa é explorada quase até ao desgaste, mas o cerne continua ali flamejante: tentar retornar ao mundo, à vida comum, e buscar fazer diferente. Procurar reparar seus erros, procurar encontrar novos caminhos, novas soluções.

The OA é a fala de Prairie Johnson, mas não é só direcionada para  os personagens daquele universo. Também direcionada pra gente. Para nossas crenças. Não crenças em religiões, mas nossas crenças no outro, nossas crenças no que há de mais belo e nobre na vida.

Com uma ousadia interessante, a Netflix investiu em uma série fora do comum, fora dos padrões. Abraçou o outro mundo e, ironicamente, conseguiu ser mais estranha que Stranger Things.

Confira o trailer:

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One thought on “The OA, a série da Netflix mais estranha que Stranger Things

  1. Amei o seu post. Espero que mantenha a qualidade de seu material, isso é complicado atualmente nos blogs.
    Sempre entro aqui para aprender mais. Existe alguma restrição
    ou eu posso compartilhar esse post no Pinterest?
    Queria que meus conhecidos também visualizassem Ótimo trabalho!

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